O romance “Noites de Vigília”, do escritor angolano Boaventura Cardoso, é uma obra de profunda reflexão sobre a história e a memória de Angola, tecendo um retrato complexo e multifacetado do país. A narrativa principal foca-se no reencontro de Quinito e Saiundo, dois veteranos da guerra civil que lutaram em lados opostos (MPLA e UNITA). Ambos mutilados, encontram-se no mercado Roque Santeiro, em Luanda, no início dos anos 2000, mais de duas décadas após a independência. Este encontro serve como catalisador para uma imersão nas memórias dolorosas, tanto individuais como coletivas, que marcaram o povo angolano. A partir deste ponto, os dois protagonistas propõem a criação de uma Associação dos Mutilados de Guerra, um gesto simbólico que aponta para a necessidade de reconciliação e de construção de um futuro a partir das cicatrizes do passado. A estrutura do romance é deliberadamente fragmentada e não-linear, refletindo a natureza caótica da memória e da própria história angolana. Através de um multifoco narracional, a obra desconstrói as visões canónicas e hegemónicas da história, questionando não só o legado do colonialismo, mas também os dogmas e as contradições dos discursos revolucionários. Boaventura Cardoso emprega uma linguagem de excecional lirismo e riqueza poética, caracterizada pela criação de neologismos e por uma constante reinvenção lexical e sintática, o que leva a comparações com o estilo do escritor brasileiro Guimarães Rosa. O estilo do autor destaca-se pela incorporação de elementos da oralidade e das tradições culturais angolanas, que se mesclam com técnicas narrativas modernas e inovadoras, como a metaficção. Esta manifesta-se na revelação de que a história de Quinito e Saiundo é, na verdade, o enredo do romance que Dipanda, o filho de Quinito, está a escrever, criando assim uma fascinante construção em abismo e questionando a própria natureza da ficção e da realidade.