Publicado em 1960, “Fuga” é o livro de estreia de Arnaldo Santos e uma obra seminal da literatura angolana. Trata-se de uma coletânea de poemas que, em vez de uma narrativa linear, oferece um mosaico de imagens e sentimentos que retratam a dura realidade de Angola sob o domínio colonial português. Os poemas exploram a vida nos musseques, a exploração dos trabalhadores contratados, a dor das mães que perdem os seus filhos e a repressão de um povo. A atmosfera é predominantemente sombria e melancólica, com uma linguagem direta e despojada que acentua a crueza das situações descritas. O título, “Fuga”, sugere uma dupla interpretação: a fuga da opressão e da miséria, mas também uma fuga para dentro de si mesmo, para a memória e para a esperança de um futuro livre. Inserido no movimento literário da “Geração de 50” e publicado pela Casa dos Estudantes do Império, um importante centro de contestação anticolonial, “Fuga” reflete as inquietações de uma juventude intelectualmente engajada na luta pela independência. O estilo de Arnaldo Santos é caracterizado por um verso livre, por vezes quase prosaico, que se aproxima da oralidade e do quotidiano do povo angolano. A sua poesia é visual e sensorial, construindo quadros vívidos da paisagem urbana e humana de Luanda e de outras regiões de Angola. Embora não tenha recebido prémios específicos, a obra é amplamente reconhecida pela crítica como um testemunho poético fundamental para a compreensão da história e da identidade angolana.