“Caminho de São Tomé”, da autora Ana Paula de Fontainhas, é um romance de ficção histórica que mergulha na vida de Rosária, uma mulher santomense com raízes em Cabo Verde e Angola. Criada em Cabo Verde, a sua vida sofre uma reviravolta dramática com a fome devastadora de 1947, que a força a embarcar numa longa e reveladora viagem de barco para São Tomé. Durante a travessia, segredos de família, há muito guardados, emergem, desvendando uma teia de relações e acontecimentos que Rosária julgava estarem sepultados com o seu avô. A narrativa, centrada na trajetória de Rosária, serve de fio condutor para explorar as complexas questões identitárias, culturais e históricas que unem e separam Cabo Verde e São Tomé e Príncipe. O romance debruça-se sobre a problemática da mestiçagem e as profundas cicatrizes deixadas pelo colonialismo, num período de intensa migração forçada pela fome e pela miséria que assolavam as ilhas cabo-verdianas na década de 1940. A obra estabelece um diálogo profundo entre a ficção e a história, revisitando e ressignificando os pressupostos éticos e estéticos do neorrealismo literário português, ao mesmo tempo que se aprofunda nas particularidades das realidades histórico-culturais cabo-verdiana e santomense. “Caminho de São Tomé” é, assim, mais do que um romance; é um painel histórico e humano que dá voz a uma geração marcada pela diáspora e pela busca de identidade num mundo em transformação.