‘Nas barbas do bando’ (1985), do poeta luso-angolano David Mestre, é uma coletânea de poesia que emerge do conturbado período pós-independência de Angola. A obra não apresenta uma trama convencional, mas sim um mosaico de poemas que, em conjunto, pintam um retrato contundente e desencantado da realidade social e política do país. O eu-lírico, que se confunde com a própria voz do autor, navega por uma paisagem de desilusão, onde os ideais da revolução foram corroídos pela corrupção, pela burocracia e pela violência. Os poemas são um ato de denúncia, uma ‘navalha encantada’ que disseca as feridas de uma nação em construção, explorando a complexa identidade de quem se vê entre duas culturas, a angolana e a portuguesa. Os temas centrais da obra incluem uma crítica feroz ao poder instituído e à corrupção que o permeia, a profunda desilusão com os rumos da nação após a independência, e uma constante reflexão sobre a identidade luso-angolana. David Mestre, ele próprio um ‘branco’ que lutou por Angola e depois se sentiu marginalizado, explora o sentimento de não-pertença e a complexa relação com a pátria. O papel do poeta como consciência crítica da sociedade é outro tema fulcral, com a palavra a ser a única arma de resistência contra o silenciamento e o esquecimento. Publicado em 1985, o livro insere-se na chamada ‘Geração de 80’ da literatura angolana, um período de intensa produção literária que procurava refletir sobre as novas realidades do país. O estilo de Mestre é direto, incisivo e por vezes irónico, utilizando uma linguagem rica em metáforas e imagens fortes para expressar a sua revolta e o seu desencanto. Embora não existam registos de prémios específicos para ‘Nas barbas do bando’, a obra é amplamente reconhecida pela crítica como um trabalho fundamental para a compreensão da poesia angolana moderna, e David Mestre como uma das suas vozes mais singulares e corajosas.