Publicada pela primeira vez em 1882, a novela “Nga Mutúri” (termo que significa “viúva” em quimbundo) de Alfredo Troni é uma obra seminal da literatura angolana que mergulha nas complexidades sociais e raciais da Luanda do século XIX. A trama centra-se em Andreza, uma mulher nascida livre numa sanzala, mas que, devido a uma dívida do tio, é entregue como mucama a um comerciante português. Após a morte do seu senhor, de quem era concubina, Andreza herda a sua fortuna, ascendendo socialmente e passando a ser conhecida como Nga Mutúri. A narrativa explora a sua subsequente busca por aceitação na elite branca e crioula de Luanda, um processo que a leva a negar as suas origens africanas, a sua língua e os seus costumes, num esforço doloroso de assimilação. O livro serve como um retrato detalhado da sociedade luandense da época, expondo as suas hierarquias, preconceitos e a dinâmica de poder entre colonizadores e colonizados. Através da trajetória de Andreza, Troni tece uma crítica contundente ao colonialismo e ao racismo, ao mesmo tempo que documenta as tradições e o quotidiano da população local, oferecendo um vislumbre da vida em Angola sob o domínio português. O estilo de Troni é realista, utilizando uma linguagem que, embora em português, incorpora termos e expressões locais, conferindo autenticidade à narrativa. A obra é considerada um documento histórico e literário de valor inestimável, pioneira na abordagem de temas como a identidade, a alienação cultural e a resistência.